A luta pelo banimento do amianto no Brasil está distante de
um final feliz. Embora essa substância letal já tenha causado a morte de
centenas de milhares de trabalhadores em todo o mundo, e por isso a exploração
e o manuseio tenham sido proibidos em vários países, poderoso lobby empresarial
e a indiferença dos poderes da República impedem que seja tomada a única
solução capaz de respeitar a vida e os direitos dos trabalhadores em todo o
território nacional.
A legislação brasileira regulatória da exploração e do uso
do amianto está na contramão do que já se reconheceu mundo afora: não há níveis
realmente seguros para a produção e o manuseio dessa substância assassina. Mas
por que os legisladores no Brasil são tão condescendentes e hesitam em bani-la
de vez? A resposta direta é a influência do poder econômico. A exploração e o
uso industrial do amianto movimentam milhões de reais.
Dinheiro que irriga campanhas eleitorais e atende a
interesses privados em detrimento dos coletivos. Não é de hoje que o “mercado e
o capital” têm mais peso entre os nossos congressistas do que o bem-estar e a
vida do nosso povo. Nesse cenário, caberia ao Supremo Tribunal Federal
reconhecer que a legislação infraconstitucional criada para tratar da questão
do amianto não respeita valores constitucionais básicos.
Entre os quais estão a dignidade da pessoa humana, o valor
social do trabalho, o direito à existência digna, à saúde e à proteção ao meio
ambiente. Se fosse realmente observada a previsão constitucional, a única
decisão possível da nossa Corte Suprema seria o completo banimento do amianto
em todo o país. Contudo, pelo que se viu no último julgamento, não há ainda uma
maioria absoluta no STF sobre o assunto.
Como advogados de dezenas de vítimas do amianto, estamos
cientes de que inexistem níveis realmente seguros para a produção e o manuseio
desse mineral assassino. Se o STF for indiferente e deixar de reconhecer nas
ações ainda não julgadas que o banimento do amianto é a única solução possível
para que sejam respeitados os valores constitucionais já mencionados, agirá
como um verdadeiro Pilatos, lavando suas mãos figurativas e deixando os
trabalhadores à sua própria sorte, continuando correndo sérios riscos e à mercê
do poder econômico.
João Tancredo e Rodolfo Ferreira são advogados

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