O Ministério Público Federal (MPF) deflagrou nesta
terça-feira (14), com a Polícia Federal e a Receita Federal, uma operação
onde investiga os deputados estaduais Jorge Picciani, Paulo Melo e Edson
Albertassi (PMDB-RJ) e outras dez pessoas por corrupção e outros crimes
envolvendo a Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj). A pedido do
Núcleo Criminal de Combate à Corrupção do MPF na 2ª Região, o
desembargador federal Abel Gomes, relator dos processos da força-tarefa Lava
Jato/RJ no Tribunal Regional Federal da 2ª Região (TRF2), ordenou as conduções
coercitivas dos parlamentares, seis prisões preventivas e quatro temporárias e
buscas e apreensões nos endereços de 14 pessoas físicas e sete pessoas
jurídicas. A condução coercitiva dos deputados foi ordenada como alternativa
inicial à prisão deles.
Na Operação Cadeia Velha é apurado o uso da presidência e
outros postos da Alerj para a prática de corrupção, associação criminosa,
lavagem de dinheiro e evasão de divisas. A petição do MPF, com 232 páginas,
resulta de investigações feitas há mais de seis meses, que incluíram quebras de
sigilo bancário, telefônico e telemático, acordos de leniência e de colaboração
premiada, além de provas obtidas a partir das operações Calicute, Eficiência,
Descontrole, Quinto do Ouro e Ponto Final.
O MPF sustentou ao TRF2 que são inafiançáveis os crimes dos
deputados que seguem em flagrante delito, sobretudo de associação criminosa e
lavagem de ativos, e que não é preciso a Alerj avaliar suas prisões. Os
investigados com prisão preventiva decretada são os empresários: Lélis Teixeira,
Jacob Barata Filho e José Carlos Lavouras, investigados na Operação Ponto
Final; além de Jorge Luiz Ribeiro, Carlos Cesar da Costa Pereira e Andreia
Cardoso do Nascimento. Os presos temporários são Felipe Picciani, Ana Claudia
Jaccoub, Marcia Rocha Schalcher de Almeida e Fabio Cardoso do Nascimento.
“Havendo demonstração cabal de ilícitos gravíssimos e até
mesmo alguns em estado de flagrância, à vista de sua natureza permanente, e que
a liberdade dos referidos alvos implicaria perigo concreto à ordem pública,
além da aplicação da lei penal, requer o MPF sejam deferidas prisões
preventivas em desfavor dos deputados estaduais ora investigados”, afirmam os
procuradores regionais da República.
Organização atuante desde anos 1990
As investigações
apontaram que o presidente da Alerj, Jorge Picciani, seu antecessor Paulo Melo, e o segundo vice-presidente, Edson Albertassi, formam uma organização integrada
ainda pelo ex-governador Sérgio Cabral e que vem se estruturando de forma
ininterrupta desde a década de 1990. A organização, como apurou o MPF, vem
adotando práticas financeiras clandestinas e sofisticadas para ocultar o
produto da corrupção, que incluiu recursos federais e estaduais, além de
repasses da Federação das Empresas de Transportes de Passageiros do Estado do
Rio de Janeiro (Fetranspor).
Três frentes de apuração embasaram a petição do MPF: os
repasses da Fetranspor para deputados; os recursos da Federação para uma conta
de Cabral e sua partilha com Picciani e Melo; e as doações da construtora
Odebrecht a políticos, depois declaradas em acordos de colaboração já
homologados.
O MPF identificou que a indicação de Albertassi para uma
vaga de conselheiro no Tribunal de Contas do Estado (TCE) pode ter sido uma
manobra para que a organização criminosa retome espaços perdidos com os
afastamentos de conselheiros determinados pelo STJ, e também uma forma de
atrapalhar as investigações, ao deslocar a competência para a apuração dos
fatos e tirar o caso do TRF2. Essa é a primeira vez em que uma investigação
ligada à Lava Jato é conduzida por um TRF.
O MPF ressaltou ao TRF2 que, com seis mandatos de presidente
da Alerj, Picciani é imprescindível na organização criminosa, pelo expressivo
poder político e influência sobre outros órgãos estaduais. As condutas de
Picciani na Alerj incluíram a edição de atos normativos em troca de vantagem
indevida e restrições ao funcionamento de CPIs.
Tanto Picciani quanto Melo tiveram aumentos exponenciais de
seu patrimônio desde o ingresso na política. Em certos períodos, seu patrimônio
cresceu mais 100%, patamar superior a qualquer investimento. As investigações
identificaram diversas relações societárias suspeitas mantidas pelos deputados,
além do repasse clandestino de verbas de empresas para viabilizar a ocultação
da origem do dinheiro e o financiamento de campanhas eleitorais.
Sobre o nome Cadeia Velha
Presídio erguido no século XVII
no local onde fica a sede da Alerj, era chamado oficialmente de Cadeia da
Relação ou Casa da Relação. No Brasil Colonial, recebia presos políticos e quem
mais infringisse as leis da Coroa Portuguesa. O prédio foi usado ainda como o
antigo Tribunal da Relação, alojamento para a criadagem da Casa Real e foi
cenário da prisão de Tiradentes e outros inconfidentes. Após 1822, a Cadeia
Velha abrigou a Assembleia Geral Constituinte brasileira e, em maio de 1826,
abrigou o primeiro Congresso Legislativo do país.
Processo por dependência à petição nº 2017.7402.000018-7

Nenhum comentário:
Postar um comentário